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E que a Panela de pipoca nunca pare de estourar: porque depois desse texto, acho que a gente já tomou champanhe junto às 9h da manhã.

Que o fogo não pare, que a pipoca estoure e que nenhum amor fique parado, feito enfeite.


Amor em ação mexe.

  • Mexe a panela para o grão do fundo não queimar.

  • Mexe o olhar para enxergar quem está ficando pra trás.

  • Mexe a mão para escrever, para fotografar, para segurar.

  • Mexe o corpo para estar presente.

  • Mexe a vida para que outras vidas também possam se mexer.



E então, aqui estou, diante de uma panela. Não era uma panela qualquer. Era aquela velha, de fundo grosso, que minha avó usava para fazer pipoca nas tardes de domingo. Eu estava lá, colher de pau na mão, milho no fundo, fogo aceso, quando entendi algo que todos os meus relacionamentos anteriores não tinham conseguido me ensinar.


Mas vamos começar em fogo baixo para se revelar.


Sabe qual é a diferença entre um grão de milho e uma pipoca?

O grão é duro, compacto, fechado. Ele se protege. Ele guarda tudo dentro de si. A pipoca é o contrário: é o grão que teve coragem de se abrir. Mas aqui está o segredo que ninguém conta: nenhum grão vira pipoca sozinho. O milho mais bonito do mundo, se colocado no fogo sem panela, sem óleo, sem quem mexa, vai queimar e pronto. Não vira nada. Vira cinza. Vira história de "quase".


É preciso o coletivo. É preciso o movimento. É preciso alguém que mexa. Quem mexe distribui o calor. Quem mexe impede que queimem. Quem mexe garante que todos, no tempo certo, encontrem seu estouro. Se não houver quem mexa, alguns grãos queimam. Outros nem chegam a estourar. Mas quando o movimento acontece, então todos podem virar pipoca. Cada um no seu tempo. Cada um com seu estalo. Mas juntos. 



Eu estava pensando nisso porque, na noite anterior, tinha terminado mais um relacionamento que parecia promissor. Não terminou com briga, não terminou com traição. Terminou com aquele silêncio incômodo de quem está junto mas não se mexe.


Ele era um homem lindo. Inteligente. Gentil. Mas quando o fogo esquentava, e ele esquentava, porque a vida sempre esquenta, ele simplesmente... parava. Não mexia. Deixava o grão queimar no fundo.


E eu? Eu queimava.


Na manhã seguinte, liguei para as meninas.




A MESA REDONDA


Sofy: (mexendo o café sem vontade) Gente, eu tô com uma metáfora na cabeça que não me larga. Vocês já pensaram que a gente é tipo... milho de pipoca?


Megui: Sofyy!! São 9 da manhã.


Sofy: Não, sério! Cada um de nós é um grão. A gente precisa de calor para estourar. Mas se não tiver quem mexa, a gente queima.


Celena: (os olhos brilhando) Eu acho lindo. Tipo, o amor é quem mexe a panela.


Sara: (tomando champanhe, porque são 9h15 e ela é a Sara) Querida, amor, não mexe na panela. Amor transa. Amor compra sapatos. Amor não fica em cima do fogão suando.


Megui: (fechando o laptop) Na verdade, a Sofy tem um ponto. O meu ex... ele mexia. Literalmente. Quando eu chegava exausta do trabalho, ele mexia. Me tirava do fundo da panela.


Celena: O meu também! Ele mexe tanto que, às vezes, eu queria que ele parasse. Mas quando ele para, eu sinto falta. Sinto o grão começando a queimar.


Sara: (pausa, olhando para o nada) Sabe o que é estranho? O meu ex... ele mexia. Danado, mexía. Eu é que não sou boa em ser mexida. Achava que mexer era fraqueza. Agora vejo que era presença.


Megui: Sofy, você está dizendo que a gente precisa de alguém que mexa a gente?


Sofy: Não. Acho que estou dizendo que a gente precisa de alguém que mexa com a gente. E que também mexa por a gente. Porque tem dias que a gente não consegue mexer a própria panela. E se não tiver ninguém por perto... a gente queima.


(Silêncio. Até Sara parece comovida.)


Sara: (levantando a taça) Então vamos beber aos mexedores. E a aprender a ser mexidas. E a mexer também, porque suponho que isso funcione nos dois sentidos.



Sem calor, ninguém estoura. Mas com calor demais, sozinho, a gente queima.


SOBRE O TEMPO DE CADA UM


Na mesma panela, nem todo milho estoura junto. Alguns estouram primeiro. Outros demoram. Outros parecem que vão ficar duros para sempre, e então, quando o fogo já está quase apagando, eles estouram.

O segredo não é estourar primeiro. O segredo é não queimar enquanto espera sua vez.

E para não queimar, é preciso que alguém continue mexendo.

Quem mexe acredita no milho que ainda vai estourar.

Quem mexe não desiste dos lentos.

Quem mexe sabe que a tigela final só fica farta quando todos, no seu tempo, encontram seu estalo.


Todos os milhos têm que mexer para que sejam pipocados.

Oráculo estourado


Ninguém vira pipoca sozinho. O milho mais bonito do mundo, se colocado no fogo sem panela, sem óleo, sem quem mexa, vai queimar e pronto. Não vira nada. Mas dentro da panela, com calor e movimento, ele explode. Vira outra coisa. Vira leveza. Vira alimento. Vira partilha. Você, com sua presença, é quem mexe. E por isso, tanta gente ao seu redor está conseguindo estourar.



A PERGUNTA QUE FICA

E você, quem tem mexido os seus milhos?

Quem está na beira do seu fogo, colher na mão, garantindo que você receba calor na medida certa. nem pouco, para não ficar duro; nem demais, para não queimar?

E mais importante: você tem mexido os milhos de quem está na sua panela?

Porque a beleza da tigela farta é que quem mexeu também come. Quem cuidou também é cuidado. Quem distribuiu calor também é aquecido. Ninguém vira pipoca sozinho. Mas também ninguém mexe a panela para sempre sem nunca ser mexido.


A desorganização desse texto é a prova de que ele é vivo. Ele não é um artigo. Não é uma crônica arrumadinha com começo, meio e fim. Ele é um punhado de milhos jogados na panela quente, cada um estourando quando sente o calor, cada um abrindo num canto diferente da tigela.


PQ Quem ama de verdade não apenas sente. Quem ama de verdade faz.

E fazer, nesse sentido, é tão simples quanto mexer uma panela. Não precisa de holofote. Não precisa de palco. Precisa de presença. De constância. De colher na mão e fogo no coração.


Com carinho, Papoula

PS: Na noite em que escrevi isso, sonhei com uma cozinha imensa, cheia de panelas no fogo, e cada panela tinha alguém que amei mexendo os milhos com cuidado. Acordei com cheiro de pipoca e uma certeza: o paraíso, se existe, deve ter cheiro de milho estourado e som de estalo.



Paz, equilíbrio e pipoca quente pra todo mundo. 








 
 
 

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Laboratório das Palavras Alquímicas. Rua dos Limiares, Entre-Lugares, Código de Entrega Poética, BRASIL

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