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Vamos dançar juntos em torno de um tomate: A Neurobiologia do Desejo e o Objeto Perdido

Atualizado: 12 de nov. de 2025

Tema Central: O significado e a beleza não são propriedades inerentes aos objetos, mas são projeções da nossa própria consciência.


Existe algo mais perfeito do que um tomate amadurecido no pé? Mas por que será que atribuímos tanta importância a pequenos objetos? Do ponto de vista neurobiológico, talvez não exista.


Esse instante de percepção ativa uma cascata de recompensa no meu cérebro. Meu amor por tomates não é apenas um gosto; é um circuito profundamente entranhado no meu sistema límbico, onde a amígdala codifica a emoção e o núcleo accumbens antecipa o prazer. É uma memória sensorial, a acidez, o doce, que se fortalece a cada repetição, tornando-se minha comida favorita em um nível quase inconsciente.


A salsa feita com tomates perfeitamente maduros, recém-colhidos, me leva ao êxtase.


Isso me lembra o café da minha avó, será que o prazer está no sabor ou na memória?

É o pico de dopamina que eu busco, a recompensa química por encontrar o objeto do desejo.


Este tomate-cereja (Midnight Roma) é o último da nossa horta.


O degradê de cores me chamou a atenção, um estímulo visual que o córtex occipital processa e que, por associação, sinaliza "perfeição" e "recompensa iminente". Mas então, o circuito se sobrecarrega. Não sei por que ele tem essa ponta afiada. Quase tenho medo de comê-lo.



Este tomate tornou-se mais do que ele mesmo; tornou-se um objeto a, no sentido lacaniano. Ele representa a falta, a promessa de uma completude que sei ser inatingível. O medo de comê-lo é o medo de consumir o objeto de desejo e descobrir que a falta persiste, que a satisfação plena é uma fantasia. A ânsia de capturar sua perfeição é a tentativa do ego de dominar o inevitável: a passagem do tempo e a perda.


Serão mais alguns meses até que eu consiga outro tomate cultivado aqui perto, perfeitamente maduro. O córtex pré-frontal, sede do planejamento e da antecipação, projeta essa linha temporal vazia, gerando ansiedade. O sistema de recompensa, agora privado do seu objeto, entra em um estado de luto antecipatório.


Provavelmente é muita pressão para um simples tomatinho-cereja. Fico então parada, com ele na palma da mão, sentindo o peso dessa expectativa. E é então que neste conflito entre o desejo neuroquímico e a angústia psicanalítica que o insight emerge: todo esse meu medo vem de querer capturar este momento. De querer engarrafar este gosto, esta luz, este verão, e guardá-los para sempre. Mas então, um pensamento mais quente ainda me atravessa: O amor não é algo a ser capturado. Não é um troféu a ser conquistado e guardado. É uma força interna a ser irradiada.


E o que é este fruto, senão a prova viva disso? Ele é pura irradiação de sol, de terra, de cuidado. E o meu próprio encantamento, este êxtase que sinto, não é nada mais do que o meu próprio amor, irradiando de volta.


A perfeição não está nele para ser consumida por mim. A capacidade de sentir prazer, amor e êxtase não está no objeto externo, mas nos nossos próprios sistemas neuronais, na nossa química interna. Está no meu olhar, que a reconhece e se alegra. O amor já faz parte de quem somos.


Ao entender que o objeto do desejo é sempre uma miragem e que a verdadeira fonte está no sujeito, libertamos da demanda insaciável. Não precisamos do objeto para ser completo. A falta é constitutiva, e é a partir dela que o desejo, e a vida, irradiam.


O tomate não precisa carregar o fardo dos próximos meses. Ele só precisa ser o que é: lembrete perfeito de que a fonte de todo esse amor já habita em nós.


...E então, encaro o tomate. Agora, posso comê-lo em paz.


Não para preencher um vazio, mas como um ato de celebração da minha própria capacidade de dar significado e sentir prazer. A recompensa não estava nele, mas no meu aparato mental, que já está pronto para encontrar beleza novamente.


E é justamente essa capacidade de transformar um simples tomatinho em algo significativo que revela nossa humanidade. Foi a mente humana fazendo o que ela faz de melhor: encontrar significado, beleza e uma boa história até em um simples tomatinho.


No fundo, a gente precisa disso para celebrar as pequenas coisas. Senão, a vida vira só uma lista de tarefas: "Comprar pão. Pagar contas. Comer tomate." E que graça teria? O verdadeiro prazer está nessa capacidade de ver não apenas um alimento, mas uma história; não apenas um vegetal, mas um símbolo da passagem das estações, e de encontrar nisso tudo um motivo para celebrar.


E se eu disser que até a matemática, em sua lógica perfeita, corrobora essa visão?

A matemática nos ensina que, na multiplicação, a ordem dos fatores não altera o produto:

a × b = b × a. Os parênteses, como em (a × b) × c , são apenas uma forma de agrupar, mas o resultado final permanece o mesmo.


Pois bem: a transcendência no ordinário obedece à mesma "propriedade comutativa do significado". É a maneira mais elegante que já vi para explicar que a beleza é uma relação, não uma propriedade, então tudo merece nosso olhar amoroso, do tomate mais perfeito ao mais comum.


O tomate (o objeto ordinário) multiplicado pelo meu olhar (a consciência) produz beleza. Meu olhar (a consciência) multiplicado pelo tomate (o objeto ordinário) produz a mesma beleza.


Os parênteses, são a narrativa que acrescentamos: a história, "o drama", o significado especial. "O último tomate do verão." "O tomate da vovó." Eles dão cor, sabor emocional e um arcabouço para nossa experiência.


Essa camada extra de significado, que colocamos em volta das coisas, não importam. A matemática nos revela que a verdade essencial é independente da ordem ou do agrupamento. Eles são só uma forma de agrupar temporariamente a experiência. Podemos chegar à mesma transcendência com uma história elaborada ou com um olhar nu e direto. O produto final, a percepção da transcendência, é o mesmo, com ou sem eles.



Sem parênteses: Vejo um tomate → sinto beleza
Com parênteses: Vejo "o último tomate do verão" → sinto a mesma beleza, só que com mais história.

A transcendência já está disponível em qualquer configuração, basta que entremos em relação com o mundo, com ou sem os "parênteses" narrativos que colocamos em volta da experiência cotidiana. Quando percebemos que os "parênteses" são opcionais, podemos alocar nossa energia consciente de forma mais livre e criativa.


A beleza do ordinário se revela justamente quando percebemos que os parênteses são opcionais. O que importa, afinal, é a operação fundamental: ESTAR VIVO E ABERTO.


Isso é libertador porque:

  1. Nos tira o peso da "narrativa perfeita": Não precisamos forçar uma grande história para cada momento. Podemos simplesmente estar e sentir.

  2. Nos devolve o poder: Se a transcendência depende do nosso olhar (a × b) e não do objeto com sua etiqueta narrativa ((a) × b), então ela está sempre ao nosso alcance. O mundo ordinário está transbordante de potencial, esperando apenas nossa presença consciente.

  3. Podemos, por diversão, acrescentar os parênteses, sabendo que são um ornamento. A vida se torna mais leve.


É a diferença entre buscar a felicidade em objetos e circunstâncias especiais e reconhecer que a capacidade para a felicidade já é uma condição interna nossa, aplicável a qualquer circunstancia. No fim, você pode comer o tomate com a solenidade de um ritual ou com a simplicidade de um lanche. O sabor da transcendência será o mesmo.


O tomate nunca deixa de ser um tomate, mesmo enquanto se torna um objeto de estudo neurocientífico e filosófico.


Se esse tomate ressoou em você como ressoou em mim, não me diga que entendeu. Me conte qual objeto comum se tornou extraordinário no seu olhar hoje?



PERGUNTAS QUE ESSE TOMATE GERARAM (E MINHAS RESPOSTAS)


1- “Como distinguir entre desejo autêntico e projeção emocional?”

Resposta: O desejo autêntico expande, a projeção aprisiona. Quando você sente que precisa daquele objeto/pessoa para ser completo, é projeção. Quando a simples existência desse elemento na sua vida já traz completude, é autêntico.


2- “Como treinar esse olhar em momentos de ansiedade?”

Resposta: Respirando e nomeando. “Estou ansioso não pelo tomate, mas pela história que estou contando sobre ele.” A neurociência mostra que nomear emoções acalma a amígdala. É ciência, não autoajuda.


3- “É possível viver sem parênteses narrativos?”

Resposta: Não totalmente, somos contadores de histórias por natureza. Mas podemos escolher quando usá-los. Que tal experimentar: um dia com parênteses (“o último café especial”), outro dia sem (“café”)?


4- “Como aplicar a propriedade comutativa em relacionamentos?”

Resposta: Lembrando que: Eu × Você = Você × Eu. O significado da relação não está só em um de nós, mas no espaço entre nós. Mudou um lado, mudou o produto.


5- “O que fazer quando atribuímos a algo o poder de nos completar?”

Resposta: Agradecer o aviso. Esse “pisca-alerta” emocional está te mostrando onde você abandonou sua auto-responsabilidade afetiva.


6- “Isso é mindfulness?”

Resposta: É mindfulness engajado. Não apenas observar sem julgar, mas co-criar com o observado. O tomate deixa de ser objeto e torna-se parceiro de dança.


7- “Meu "tomate" é uma caneca da minha mãe. E o seu?”

Resposta: Hoje é este tomate. Ontem foi o cheiro de livro velho. Amanhã será o som do trem passando. A matéria-prima muda, a capacidade de transformá-la em significado permanece.


8- “Como manter essa consciência na ansiedade?”

Resposta: Não “mantenha”. Recomece. A cada respiração, a cada olhar, a cada xícara vazia ou cheia. A consciência não é um estado a ser mantido, mas um músculo a ser exercitado.


9- “Como levar isso para uma equipe focada em resultados?”

Resposta: Mostrando que pessoas que se sentem inteiras produzem melhor. Não é sobre abandonar resultados, mas sobre entender que resultados sustentáveis vêm de pessoas que não buscam no trabalho a completude que só encontram em si mesmas.


10- “Os parênteses não são justamente o que dá sabor à vida?”

Resposta: São o tempero, não a comida. O problema não é usar parênteses, é confundi-los com a realidade. Saboreie o tempero, mas não esqueça de mastigar o alimento.



De uma tomateira que, traduzindo emoções, transborda aos tomateiros que tudo que você busca já está aí, não no objeto ou no ideal, mas na sua capacidade de irradiar significado e amor para o mundo à sua volta.



 
 
 

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Laboratório das Palavras Alquímicas. Rua dos Limiares, Entre-Lugares, Código de Entrega Poética, BRASIL

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