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Papoula veio distribuir um abraço a todos os que aprenderam a amar sem controlar.

Atualizado: há 4 dias

Capítulo: Quando o Mistério também é um lugar para amar


E então, sem nenhum aviso, me peguei mentindo para mim mesma.

Não uma mentira grande. Dessas que a gente conta sem perceber, enquanto rola o feed do Instagram. Uma mentira miúda, quase invisível, do tamanho de um story bem editado.

Todo mundo sabe o que sente. Menos eu.

Foi assim que comecei a noite. Deitada no sofá, o celular na mão, os pés descalços tocando o chão frio da sala. E uma confusão no peito que não cabia em legenda nenhuma.


SOBRE O AMOR QUE O INSTAGRAM VENDE

Sabe qual é a diferença entre um amor de feed e um amor de verdade?

O amor de feed é foto com legenda certa. É "ele é tudo pra mim" no dia perfeito. É a certeza estampada em nove quadrados bem cortados.

O amor de verdade é texto sem reels. É a dúvida que você não posta. É o "será que isso é amor?" que você digita e apaga porque não combina com a estética.

O Instagram te dá roteiro. O amor real te dá improviso.

E eu, que sempre gostei de saber a próxima cena, descobri que o amor não tem spoiler.


Foi então que lembrei do que li uma passagem. A passagem que todo mundo coloca em convite de casamento. A mesma que ninguém lê com atenção de verdade.

"O amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta."

Repare: ele não diz que o amor sabe.

Não diz que o amor tem respostas.

Não diz que o amor é certeza.

Ele diz que o amor persiste, mesmo sem roteiro, mesmo sem garantia, mesmo com o coração batendo naquele ritmo esquisito de quem não sabe se vai dar certo.

E por algum motivo, aquilo me acalmou.


Deitei o celular no peito e fiquei olhando o teto.

Posso não saber por mais 30 segundos, pensei.

Posso não saber por mais 40 anos.

E, curiosamente, isso não me apavorou. Me libertou.

Porque a única coisa mais pesada que a dúvida é a obrigação de não tê-la.


SOBRE O PESO DE TER QUE SABER

A gente cresce ouvindo que amor é sentimento. Mas ninguém avisa que sentimento não é placa de rua, muda de direção o tempo todo.

A gente cresce ouvindo que "quando é certo, você sabe". Mas ninguém diz que o saber demora. Ou que ele vem e vai. Ou que, às vezes, ele chega disfarçado de dúvida.

A gente cresce com a ideia de que o amor é um destino.

E ninguém nos prepara para ele ser uma travessia.


No dia seguinte, levei essa confusão para os lugares. E as pessoas, cada uma do seu jeito, me deram um pedaço de espelho.


DIÁLOGOS DE LUGAR

Café da manhã, 9h (com a amiga prática) 


— Você acha que é normal não saber se tá fazendo bem pra alguém? perguntei, mordendo o pão.


— Normalíssimo. Anormal é quem tem certeza. Certeza em amor é suspeita. Ela tomou o café de um gole só.

WhatsApp, 11h23 – com a amiga espiritual


— Tô me sentindo estranha. Não sei se isso é amor.


— E precisa saber?


— Ué, sim.


— Amor não é diagnóstico, amiga. É sintoma. Você sente? Então é. Pode mudar de nome amanhã? Pode. Mas hoje, enquanto dói de um jeito que você não quer desistir… chama do que quiser.

Corredor do trabalho, 14h (com o colega cético)

— Cê acredita que eu ainda não sei se é amor?


— Amor é invenção romântica pra justificar biologia.


— Nossa, que deprê.


— Deprê é pagar boleto sozinho. Você tá com dúvida? Ótimo. Sinal de que ainda tem pele no jogo.

Banco da igreja, 17h (comigo mesma)
Sentei no banco de madeira. A igreja estava vazia.
— E se eu nunca souber? (sussurrei) 
O silêncio respondeu: E daí?


Saí de lá mais leve. Não porque tivesse respostas. Mas porque finalmente entendi que não precisava delas para continuar.


A PERGUNTA QUE FICA

E você?

Quantas vezes já deixou de viver um amor porque ele não veio com manual de instruções?

Quantas vezes já desistiu antes da hora porque achou que a dúvida era prova de que não era pra ser?

E se a dúvida não for o inimigo?
E se ela for a própria matéria-prima do amor. O tecido cru que a gente vai bordando com escolhas, com paciência, com a coragem de continuar mesmo sem saber o ponto final?

O que muda, no seu peito, quando você troca "preciso ter certeza" por "posso conviver com o não saber"?


NOTA DA PAPOULA

Depois de tudo isso, voltei para o sofá. O mesmo sofá. A mesma sala. O mesmo celular.

Mas algo tinha mudado.

Abri o Instagram. Vi uma foto de um casal com legenda perfeita. Senti vontade de rir. Não de cinismo, de ternura. Eles também não sabem, pensei. Só escolheram não mostrar.

E tudo bem.

Desliguei a tela. Olhei pela janela. A cidade continuava lá. O chão continuava firme.

E eu continuava sem saber.
Mas, pela primeira vez, isso não era um problema.
Era uma paisagem.


Com carinho,
Papoula

Vila Pequena, 2026

PS: Não sou religiosa, mas essa passagem sempre me pegou. Diz "tudo crê, tudo espera". Ele não diz "tudo sabe". E eu acho que foi de propósito ; )



 
 
 

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Laboratório das Palavras Alquímicas. Rua dos Limiares, Entre-Lugares, Código de Entrega Poética, BRASIL

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