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Rompendo com o script (OU: mais uma vez, eu não escolhi o que estava no menu)


Toda história tem um instante em que ela realmente começa.


O meu foi numa tarde, quando a luz da janela já tinha aquele tom de quem está indo embora, e eu estava sentada na poltrona que já conhecia a curva das minhas costas. Ela olhou para mim com aquele jeito que as psicólogas têm, como se lessem não apenas o que você diz, mas o que você não diz no espaço entre as palavras.


— Qual é a sua linguagem do amor? — perguntou.


E eu, que já tinha lido sobre as cinco linguagens, que já tinha decorado as definições, abri a boca e:

— A verdade.


Ela anotou. Eu vi. Mas o que ela escreveu, eu nunca saberei.


Não pensei. Não pesei. Não traduzi. Apenas saiu. E ali, naquele silêncio entre uma palavra e outra, eu entendi que não estava falando de presente, nem de toque, nem de tempo. Estava falando de um tipo de respiração que só acontece quando não há máscara.


Foi quando percebi que aquela resposta não cabia em nenhum dos cinco itens do cardápio. Ela não era uma escolha, era um reconhecimento. E, não tive vontade de encaixar o que sentia em uma categoria pronta.


Mais uma vez, eu não escolhi o que estava no menu. Porque o que me move não é o gesto. É a alma por trás dele.


As 5 Linguagens do Amor não são uma descoberta científica. É um conceito criado por um pastor, Gary Chapman, em 1992, baseado em sua experiência pastoral e em uma amostra limitada de casais: religiosos, heterossexuais, de valores tradicionais. O livro propõe cinco categorias: palavras de afirmação, tempo de qualidade, presentes, atos de serviço e toque físico. A ideia é simples: cada pessoa tem uma linguagem primária, e o segredo do relacionamento está em aprender a falar a linguagem do outro.


Mas, pensando bem, esse modelo sempre me pareceu um pouco... engessado. A pergunta já vem com a resposta pronta. Ensaida. Automática. É como se o amor entrasse num cardápio e a gente só precisasse apontar: "um pouco de toque físico, por favor, e uma dose extra de palavras de afirmação." E a maioria de nós escolhe um ou dois itens e pronto.


Só que o amor não cabe num menu fixo. E Chapman, por mais boas intenções que tenha tido, deixou de fora formas profundas de demonstrar afeto: apoiar a autonomia do outro, celebrar seus sonhos, estar presente nos silêncios, respeitar sua individualidade.


E se a sua linguagem não estiver em nenhuma lista? E se o que você precisa não for palavra de afirmação, nem toque físico, nem tempo de qualidade, nem presente, nem ato de serviço? E se o que você precisa for simplesmente o outro que não se esconda, que não troque a verdade por conforto?


Talvez haja uma sexta linguagem de amor. Talvez haja uma centésima. Talvez a verdade seja apenas a primeira de muitas que ainda não foram nomeadas.

E talvez, quando a psicóloga perguntou, ela não estivesse procurando uma resposta certa. Ela estava procurando a minha.


Não estou propondo uma sexta, sétima, oitava linguagem. Não vou criar uma nova categoria para disputar espaço com as antigas. Porque se você buscar na internet, vai encontrar centenas de pessoas tentando exatamente isso: encontrar a "linguagem que falta", o item que não foi incluído, o complemento que vai fechar a lista.


Mas o que eu quero dizer é mais simples e mais radical: a verdade é a própria linguagem do amor. E todas as outras, palavras, toque, tempo, presentes, serviço, são apenas dialetos.


Sabe qual é o problema das cinco linguagens do amor?

Não é que estejam erradas. É que são incompletas.

Palavras de afirmação sem verdade são apenas frases bonitas. Toque sem verdade é gesto vazio. Tempo sem verdade é paisagem que ninguém habita. Presente sem verdade é objeto. Serviço sem verdade é obrigação.

Não são linguagens do amor. São dialetos. E nenhum dialeto faz sentido se a língua-mãe não estiver ali.


A língua-mãe é a verdade.


Tudo o que é amor — tudo — precisa ser atravessado por ela. Senão, não é amor. É performance.


UMA PAUSA: SOBRE A VERDADE QUE NÃO É CRUEL: Já me disseram que a verdade pode machucar. E eu concordo. Mas a mentira também machuca, só que mais devagar, como uma água que entra pelos poros e você só percebe quando já está afogado. O problema não é a verdade. O problema é que a maioria de nós aprendeu a chamar de "verdade" o que é, na verdade, um trauma fantasiado de sinceridade. Verdade não é despejo. Verdade não é vingança. A verdade é o que resta quando você tira todas as camadas que não são você. E talvez seja por isso que eu a chamei de linguagem do amor. Porque amor, para mim, é o espaço onde você pode dizer "isso sou eu", e não precisar se explicar.


Na poltrona, eu só sabia que era verdade.


E essa verdade que eu disse na poltrona, essa escolha de não caber no menu, tem se mostrado em coisas pequenas do meu dia a dia.


Ficando por aí, entre uma flor e outra, entre um caroço e um martelo, eu percebo que a vida também tem suas linguagens silenciosas. Foi assim, por exemplo, com uma caixa de damascos que chegou aqui em casa. Uma fruta simples, doce, que a maioria come e esquece. Mas meu amigo, com a sabedoria de quem não desperdiça o que os outros ignoram, nos instruiu: guardem todos os caroços. E ali, sentada na varanda, ele quebrou cada caroço com um martelo. Não para chegar à polpa, que já tinha sido consumida, mas para extrair o miolo escondido. A parte mais dura, mais amarga, que a maioria jogaria fora. Ele macerou em álcool, e depois transformou em um licor digestivo. O que era descarte virou essência.


E eu, observando aquela cena, não pude deixar de sentir que ali estava uma parábola viva do que eu havia dito na poltrona.


Porque o damasco, como o amor, tem casca. Tem polpa. E tem caroço.


A maioria de nós vive na polpa. Consome rápido, saboreia o doce, e descarta o resto. Fica nos gestos ensaiados, nas palavras que não custam, no toque que não exige presença. Escolhe um item do menu e pronto.


Mas o amor não é o que se contenta com a polpa. É o amor que tem paciência para quebrar o caroço. É o amor que senta na varanda com um martelo e extrai o que está dentro. Que deixa macerar no tempo. Que espera o amargo se transformar em essência. Quem sabe que o mais precioso está no que a maioria descarta.


E talvez seja isso que a psicóloga anotou, naquela tarde, quando eu disse "a verdade".

Talvez ela tenha escrito: "Esta pessoa entende que o amor não está na casca."

Ou talvez tenha escrito apenas: "Ela está disposta a quebrar o caroço."


Nunca saberei.


Foi ali que eu percebi: a verdade não é o que eu quero que o outro me dê. É o que eu quero que o outro seja. E, sendo, me dê a permissão de ser também.




Esse texto não é sobre as 5 linguagens. É sobre a coragem de sair do menu e perguntar: "O que você realmente precisa?" E esperar a resposta, sem pressa, sem julgamento, sem medo de errar.


E você?

Qual é a sua linguagem do amor?

Não é o que você decorou. Não é o que você leu nos livros. A sua, aquela que você descobriu quando alguém te perguntou e você respondeu sem pensar.

Talvez não esteja em nenhuma lista.

Talvez você tenha acabado de criar uma nova.

E talvez, só talvez, essa seja a mais antiga de todas: a coragem de ser quem você é, e encontrar quem faz o mesmo.


Vilarejo, Papoula

PS: Uma semana depois, a psicóloga me manda uma mensagem: "Sua resposta ficou comigo. Obrigada por me lembrar que a verdade não é sobre ser dura, é sobre ser inteira." E eu chorei. Mas foi um choro de reconhecimento. Como quem olha no espelho e vê, finalmente, o próprio rosto.


Escrevo para quem quer se reconhecer.

📷 @sbragapaula_



 
 
 

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Laboratório das Palavras Alquímicas. Rua dos Limiares, Entre-Lugares, Código de Entrega Poética, BRASIL

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